Estive me perguntando, nos últimos dias, sobre o respeito por outras formas de vida e sobre essa ideia equivocada que temos de acreditar que somos uma espécie superior.
O último ano e meio tem sido difícil, cheio de tristeza e desassossego para muitos. No meu caso, foram meses de profunda tristeza e, ao procurar saídas para a minha situação, acabei no Brasil, junto com os macacos. Foi aqui que consegui voltar a prestar atenção no que é verdadeiramente importante, centrar a minha vida nas causas que mexem com o meu interior e dar um novo sentido à busca pela felicidade. Foi assim que terminei por participar do Projeto Mucky, onde tive a oportunidade de conviver com quase 300 macacos de diferentes espécies. Foi a melhor alternativa que encontrei para ser voluntária durante algumas semanas, depois de pesquisar outros projetos em países da América Latina e até da África.
No início, o meu objetivo era totalmente interior: eu queria chegar lá para me afastar da tristeza e me preencher de coisas boas, estando em contato com esses incríveis animais. Mas a aprendizagem foi muito maior. Logo ao chegar, entendi o verdadeiro sentido do meu trabalho como voluntária e o quanto eu podia contribuir para os bichos, assim como o quanto eles contribuíram para mim.
Durante algumas semanas, morei no refúgio com mais 17 pessoas; muitas delas são mulheres que vivem e trabalham ali, em turnos das 7h às 17h. A Isa, a Laura e eu éramos as voluntárias, e tínhamos os mesmos horários, com atividades específicas a cada dia. O dia começava retirando as lonas das gaiolas dos macacos; depois, servíamos o café da manhã (para os bichos). Para isso, montávamos bandejas com potes de cerâmica cheios de água e comida, que levávamos em uma carriola pelos caminhos de terra do refúgio. Força e habilidade eram necessárias para realizar essa tarefa, mas foi com os dias de trabalho que consegui desenvolvê-las.
Depois de entregar o café da manhã a cada um, voltávamos para continuar outras atividades, que variavam de dia para dia e consistiam em ajudar na administração de medicamentos, pesar os macacos para controlar a sua saúde, dar Ensure àqueles que precisavam de um complemento alimentar, fazer terapia, dar banho e alimentar os que não conseguiam fazê-lo sozinhos, distribuir folhas de couve, recolher os potes do café da manhã, preparar os almoços, etc. Assim, o dia passava entre idas e vindas pelo refúgio, realizando uma tarefa após a outra. Alguns dias o trabalho era muito cansativo, pois eu caminhava até 8 km por dia; mas, quando as coisas ficavam mais tranquilas, conseguia ficar perto dos macacos, falando com eles e morrendo de rir ao vê-los fazer as suas coisas.
Nos primeiros dias, eu estava muito surpresa com tudo; não conseguia acreditar na paixão e na dedicação que a equipe tem para proporcionar uma vida digna e confortável aos animais. Ali, tudo é feito para que os macacos estejam bem. A comida que eles comem é muito gostosa: a Helena e a Tais cozinham refeições balanceadas, nutritivas e coloridas, sempre com frutas, legumes, amendoins, mingau e até arroz-doce. Muitas vezes eu ficava com vontade de ‘roubar’ um pouco da comida deles. Um dia sobrou arroz-doce, e nós comemos — estava delicioso. Entendi então por que alguém uma vez me disse que eu comia como macaco; também entendi aquela frase que dizemos na Colômbia, “estou com cheiro de macaco”, pois esse era exatamente o meu cheiro todas as noites.
Vocês devem estar se perguntando agora por que o Mucky tem quase 300 macacos ‘trancados’ em um refúgio e por que eles não estão livres na natureza, como deveria ser. Bem, cada macaco tem seu nome e a sua história; todos chegaram ali em condições de saúde precárias, e o Mucky tem sido, para muitos, a salvação.
A Pirata foi atacada por um cão e perdeu a visão de um olho; o Panda foi atropelado por um carro e ficou com deformidades nos lábios e nos dentes; o Choy foi pisado durante um churrasco de família, onde era mantido como animal de estimação, e ficou paraplégico; a Primavera perdeu parte do braço em um acidente na cidade; a Lucena não consegue caminhar; e a Nashira precisa ser banhada, alimentada e estimulada para fazer xixi e cocô. Assim, cada um tem uma condição e uma história que evidenciam que nós, como espécie humana, não temos respeito algum por outras formas de vida.
Os macacos vivem nas melhores condições possíveis. Eles recebem todos os cuidados e atenções de que precisam, pois, infelizmente, não podem voltar para a natureza: muitos deles nunca aprenderam a viver nela; pelo contrário, cresceram como animais de estimação, alimentando-se de coisas inadequadas e sofrendo maus-tratos. Outros perderam o seu habitat e passaram a se aproximar das cidades em busca de alimento, tornando-se vulneráveis a acidentes com cabos elétricos, atropelamentos nas estradas ou ataques de animais domésticos, como cães.
Com certeza posso dizer que essas semanas no refúgio foram maravilhosas. A tristeza foi embora? Ainda não sei, mas me apaixonei pelos bichos e pelas pessoas que trabalham ali. Morei e trabalhei com pessoas respeitosas, amorosas e solidárias. É uma equipe incrível, sempre em busca do bem-estar de todos. Cada momento foi um prazer, desde limpar o cocô da Primavera até aqueles planos improvisados de ir ao parquinho novo do povo ou passar uma noite de pijama assistindo a um filme ruim e comendo um milhão de pães de queijo feitos em casa, ou quando todos começavam a falar portunhol.
Essa gente recebeu – me com os braços bem abertos para me sentir como em casa por uns dias, sempre atentos para me dar uma xicara de café (porque preciso café bem cedo), sempre perguntando se estava cansada ou se estava bebendo suficiente água. E se os macacos comeram bom a gente não tem reclamo, a Jackie e a Andressa tudos os dias cozinharam coisas muito gostosas para nós. Eu já estou com saudade da farofa. Morar nessa comunidade de macacos e pessoas maravilhosas foi uma ideia muito boa y mais que nada uma intensa experiencia.
Muito obrigada Roberta, Jackie, Helena, Thaís, Andressa, Ingrid, Amanda, Léa, Beth, Ana Paula, Tha, Nath, Amanda, Mayra, Fernanda, Rapha, Jaque, Laura, Isa, Thayna, Adriana, Carlos, Severino, Valter. E, claro, a Lívia, que sonhou e tornou isso realidade. Além disso, com suas habilidades quase mágicas, consegue manter o Projeto funcionando. Obrigada, meninas! Vocês têm uma casa e uma amiga na Colômbia.














